sábado, 4 de outubro de 2025

Robô Selvagem, pela enésima vez

Minutos atrás assisti ao filme Robô Selvagem pela enésima vez. Chorei, como de costume.

Cada vez que assisto a um filme tento me lembrar quantas vezes isso já aconteceu, ou quais filmes já conseguiram fazer as conexões ferverem em minha cabeça. Sei que costumamos ficar mais sensíveis com aquilo que está mais a mostra, que é mais recente, ou que causa um novo impacto em algo que já parecia estar devidamente acomodado. 

Mas quantos, quantas, quais filmes ou histórias de fato já te fizeram ligar o lé com cré de toda tua vida de uma única vez?


O enredo é de uma robô, a Roz, programada para cumprir tarefas com o máximo de êxito que um computador bem programado pode entregar. Por muitos revéses, ela se vê responsável por algo que não estava programada, ligada a uma vida que não imaginava e o quão profundamente iria remexer em todas as suas linhas de código.


És pai? Mãe? Caso não, talvez me entendas: imagine-se num contexto que você pode até saber quais tarefas tem pela frente, pode até não saber exatamente como resolver cada uma delas, mas se vê tão mergulhado naquilo, com seus humores e sentimentos tão confusos e misturados com as pequenas felicidades e frustrações que se juntam e se misturam ao longo dos dias, que você sequer consegue olhar pra cada uma dessas coisas e, no final, só aparecerá arranhado, machucado, coberto de lama e musgo. Pode ser que te falte pedaços ao longo do processo, também. 


Bico vivo é o menino por quem Roz se vê mãe. Nascido homem, gosto de ver a história como pai. Mas é humanamente impossível repassar a história de trás pra frente, milhares de vezes, e não refletir sobre como meus pais, nossos pais, teus pais, os pai e mãe de todo ser vivo desse planeta, não foram (ou se deixaram) ser arranhados, machucados, jogados do penhasco, amputados, despedaçados, cobertos de lama e musgo, voluntariamente, pra que suas crias aprendessem a bater as asas.


Não faz muito tempo, preciso dizer, acredito que tenha trespassado aquele limiar de insegurança diante da vida que trazemos desde a infância. Inclusive, lembro muito, mas muito bem, de uma cena memorável de um período em que achava que já tinha todas as respostas: eu tinha acabado de arrumar alguns pequenos itens num apartamento que havia alugado pra morar, logo no começo da faculdade. Isso foi em Marília/SP, era 2004 e eu estava com 19 anos. A cena: meus pais dentro do carro indo embora e eu estava da calçada, com um sorriso no rosto e acenando um tchau! - eles estavam iniciando a viagem de volta pra casa deles - em Campinas/SP, quase 4h dali.


Preciso dizer que aquela mudança foi esperada e até programada por mim - do meu jeito, com minhas expectativas, e com todas as limitações de quem tem 19 anos. Arrisco a dizer que da parte de meus pais, idem. Da separação? Duvido tenha existido qualquer preparo, de qualquer um de nós. A cena se completa com meus pais lagrimando e escondendo o rosto, algo que eu facilmente notei mas procurei não me abalar. Se bem me recordo, nada dessa reação me foi dita nas conversas ao telefone que ocorreriam nos dias seguintes (sim, por telefone, pois pode acreditar, um dia o mundo viveu sem whatsapp).


O que eu não imaginaria, mais de 20 anos depois, era que essa cena de ver os dois pela janela do carro chorando seria relembrada depois ver a Roz se despedindo de Bico Vivo, com um aperto no coração nas engrenagens, pois enfim o filhote de ganso havia crescido e estava começando a seguir seu tão esperado momento de migração.


Mas me tornei pai, e não vou entrar aqui em qualquer reflexão sobre ter ou não pedaços faltando, estar ou não com rasgos no peito só por ter trilhado esse caminho - voluntário e supostamente consciente de tudo. Qualquer descrição ou relato seria mera casca de uma história que sempre será íntima e pessoal, de nós para nós mesmos.


Mas posso dizer, sem nenhuma dúvida, que muito me identifiquei com Roz, e que ela ainda fará parte de um seleto grupo de filmes que farei questão de assistir muitas e muitas vezes, por muitos anos.


Eduardo, pai de três quatro, filho de Margarete e Eduardo.



ps: Roz sobrevive à migração de Bico Vivo e, depois de muitos outros novos desafios, passa por uma invejável renovação, sem perder a conexão que criou com seu menino.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Marofa de 3a marcha, por favor.

Onze meses. É o tempo que já passou desde que decidi descobrir como era viver num mundo mais lento. Até então eu não sabia que tudo ficaria mais lento. Não sabia também que ia gostar de estar devagar. Foram 39 anos da mais profunda intensidade, num misto de gentilezas atropeladas, sutilezas acavaladas e uma atitude comparável a daqueles tratores com correntes usadas pra devastar florestas.

Racionalmente eu já vinha, de muitos anos, descortinando minhas ingenuidades (além das faltas de noção), e entendendo que nem tratores, cavalices ou atropelos eram bons. Mentalmente tudo parecia uma árdua ideia de produtivismo misturada com total inaptidão pra qualquer coisa, com qualquer pessoa. Talvez por isso se passaram tantas coisas, situações e pessoas que ainda seguem inexplicáveis? Talvez nunca descubra…

Hoje ainda são 4 de fevereiro de 2025. Quase um ano atrás fiz contato com uma associação canábica, pouco depois de sair de uma consulta médica que me custou bastante - mais emocional que financeiramente. Desde então, gotinhas matinais e noturnas tem regado meus dias. Eu, que sequer fumei qualquer coisa de acender na vida, tornei-me maconheiro.

É isso mesmo. O tom pejorativo é pra tentar falar algo de engraçado. Acho que não deu certo. Tampouco me sinto feliz com essa lentidão toda. Tenha certeza, você que me lê: não quero voltar para quem eu era antes. Só não sei o que fazer a partir daqui.

Estar mais devagar, permitir-me dirigir a 60km (quando a pista permite 70km) está sendo incrível, preciso dizer. Também estou achando o máximo dar atenção pra algumas coisas de cada vez - antes eram muitas, mas muitas mesmo, em muito pouco tempo, o tempo todo.

E eis que a pergunta que mais tenho me feito nas últimas semanas é: quanto tempo será preciso pra refazer tudo, tudo de novo? É como disse Clarice (aquela da Macabéa): Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

A angústia ainda bate forte, dia após dia, e a impressão que dá é disso, entende? Parece que resolvi desacelerar quando estava na subida de um morro.

Que fique registrado, jamais me verão de novo guiando um motor 1.0 a 180km/h (sim, já fui assim e eu nem sei pescar). Mas preciso urgentemente sair dessa marofa.

Abs

ps: leiam Sidarta Ribeiro!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Carta à uma amiga, que é forte como pedra


Como tudo que carregamos em nossas ideais e sentimentos, os passos que damos com nossas emoções e o avançar do tempo, essa carta vem em resposta a muita coisa, pra um tanto de gente. Há tempos (muitos tempos!) devo uma carta a uma amiga querida. Ela, talvez já não se ache tão querida assim, tal é o tempo de demora minha em escrever à ela. Mas eis que um ser tão forte quanto ela passou por mim e deixou respostas, mais que perguntas. Esse texto é várias coisas: além de um pedido de desculpas, é também um agradecimento; além de parecer uma história pela metade, desconfio que seja também o começo do venha a contar do pouco que aprendi no último ano.

xxxxxxxxxxx

Oi! Como estás?
Há quanto tempo te devo essa carta mesmo? Nem sei...
Mas quero que saibas que muito me remoí por dentro por causa de tanta demora. Tua proposta, tua provocação, teu convite, vieram certeiros naquilo que eu precisava: retomar amizades, resgatar pessoas queridas que deixei o tempo levar. Se já não voltam mais, tudo bem. Se já caiu (cai?) no tempo, não tem problema. Mas tenho algo comigo que preciso te contar.

Minha jeito de achar que nunca é o melhor momento de falar com as amizades me fizeram deixar que se perdessem no tempo o que sou, o que somos e o que carrego entre tu e eu. Essa foi a minha dificuldade em poder dizer o que nos fazia ímpares, pares de um grupo incrível que é (já foi?) o nosso. Já não me sinto mais parte dele, quem sabe um dia consiga retornar?

Mas eis que o tempo, o universo, o deus e a deusa, e o Pedro, me ajudaram a botar novas energias nessa missão que é esta carta, que são as nossas próprias vidas.

O que preciso te contar é o profundo sentimento de gratidão que carrego por ti (e também pelo Pedro, haha). Mas te perguntas “por que?” Leia a letra dessa música aí na seqüência. Se puder, e eu prefiro que tu possas, coloque a música pra ouvir e acompanhe com a letra. Pra facilitar, segue o link:

Nuvem Passageira - Ellen Oléria

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinha, perdida e louca no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Por isso, agora, o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer, ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar


Minha gratidão é por tu seres a pessoa que és. Forte, de riso largo, impetuosa com o mundo e com tudo o que de triste as pessoas nele nos trazem. Poucas pessoas se mantém tão firmes nesse propósito como tu.

Minha gratidão é também por ter sido apresentado à voz da Ellen Oléria por ti, que depois me trouxe a versão de Nuvem Passageira. Os dias que se passaram ao último 28 de abril foram profundamente difíceis. Ainda são. Mas a letra de Nuvem passageira foi uma das coisas que me ajudaram a ficar de pé, a entender, a dar sentido, a seguir num sentido.

Com a sua missão, Pedro veio como nuvem passageira, mas veio Pedro, veio pedra, veio forte, veio trazer a mim uma força que achei nunca possuir, jamais carregar, que me impediriam até de digitar com as mãos trêmulas do choro forte que vem agora...

É difícil não racionalizar tudo. Pedro, a pedra, também ainda está me ajudando com isso. Onde quer que esteja. E tu, e Ellen, e muitas, muitas outras pessoas também estão. Mesmo que não saibam.

Outro dia descobri uma música nova. Segue a letra e o link, caso não conheças.



To Build A Home - The Cinematic Orchestra


There is a house built out of stone
Wooden floors, walls and window sills
Tables and chairs worn by all of the dust
This is a place where I don't feel alone
This is a place where I feel at home

Cause, I built a home
For you
For me

Until it disappeared
From me
From you
And now, it's time to leave and turn to dust

Out in the garden where we planted the seeds
There is a tree as old as me
Branches were sewn by the color of green
Ground had arose and passed it's knees

By the cracks of the skin I climbed to the top
I climbed the tree to see the world
When the gusts came around to blow me down
I held on as tightly as you held onto me
I held on as tightly as you held onto me

Cause, I built a home
For you
For me

Until it disappeared
From me
From you

And now, it's time to leave and turn to dust

Construir Uma Casa (tradução)

Há uma casa construída de pedras
Com chão de madeira, paredes e peitoril de janelas
Mesas e cadeiras cobertas todas de poeira
Esse é um lugar em que não me sinto sozinho
Esse é um lugar onde me sinto em casa

Porque, construí uma casa
Para você
Para mim

Até desaparecer
De você
De mim
E agora, é tempo de partir e deixar a poeira

Lá fora no jardim onde plantamos as sementes
Há uma árvore tão velha como eu
Ramos foram costurados pela cor do verde
A terra havia se levantado e passou-o de joelhos

Pelas ranhuras da pele, subi ao topo
Subi a árvore para ver o mundo
Quando as rajadas chegaram para me derrubar
Segurei tão forte quanto você segurou a mim
Segurei tão forte quanto você segurou a mim

Porque, construí uma casa
Para você
Para mim

Até desaparecer
De você
De mim

E agora, é tempo de partir e deixar a poeira




Pedro não desapareceu, não de mim. Nem de Rani. Nem de Sarah. Nós construímos nossa casa antes dele, mas ele veio pra deixar tudo mais forte. Como Pedro, como pedra.

Amo você, Lélia. E todxs que nos acompanharam e acompanham nesse caminho.
Amo você, Sarah, minha filha. Amo você, Pedro, meu filho. E amo você, Rani, por tudo e por me permitir estar ao teu lado nessa vida.

Queria amiga, forte como pedra, tenho certeza de que tu e Pedro se dariam muito bem.

Que dessa carta a gente não deixe mais de se falar.

Um beijo,

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Que em mim amadurece

E eis que o não-dormir do 31 e um piscar de olhos, chega o dia 2.
Desta vez, a contagem regressiva não foi com os pés na areia, mas num novo-estar, num novo lar, com uma nova-mesma família.
Família e bem estar é pertencimento incondicional, é estar por si e ser reconhecido como par. Ontem foi dia de casa nova. E depois de anos - anos! - um velho pertencimento se reavivou, num velho novo-lar.


As mudanças foram muitas neste que passou. As oportunidades que brilharam no caminho foram tantas que ainda agora é difícil de acreditar, mas que fazem sim todo sentido ao vermos o brilho dos olhos, os abraços que não acabam, as risadas de satisfação e alegria, em meio à tanto que nos espera pela frente.


Se tanto e muito podem nos dizer o que fomos e o que podemos ser, só me vem uma trilha pra lá de  inspiradora, com uma única palavra que possa definir isso tudo: gratidão.


E que venha 2014!


Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.


Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.


Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.


Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece

Amor, Secos e Molhados

Eduardo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Mas que nada, sai da minha frente eu quero passar!

Já vai pra três meses sem escrever. E enquanto revisitava os textos e momentos guardados aqui, me perguntei:nostalgia?

Uma lágima quase escorreu, aguando o sorriso escondido no canto da boca ao lembrar do quê, pra quem, de quando e como cada um dos momentos vieram e deixaram suas marcas comigo, significadas nos textos do blog.

Mas não, não foi nostalgia. Foi pra tentar criar vergonha na cara e revisitar as metas, os objetivos, de me lembrar mesmo para o quê eu vim, à que me propus.
Forçado demais? Mas que nada, sai da minha frente eu quero passar!*
Eu mesmo me reli com olhares irônicos o nunca fiz planos, contei datas ou estipulei metas. Não que agora seja uma meia verdade (ou uma meia mentira). Talvez a grande sensação, um tanto dolorida, foi perceber o quanto não ter planos, datas ou metas foi de um aprendizado incomum, ao chegar na boca do túnel e perceber: sim, é aquela luz lá, e é pra lá que eu vou!

Eduardo

*Mas que nada - Elis Regina


domingo, 8 de setembro de 2013

Lar, afinal, é o lugar em que você está

Lar? O que é um lar? Lar é um trabalho em progresso. É um projeto em que estamos constantemente incluindo melhorias, fazendo correções. E para a maioria de nós, lar tem menos a ver com um pedaço de chão do que com um pedaço de alma.
Nada! Não podemos tomar nada por óbvio! Viajar é como estar apaixonado: de repente nossos sentidos estão todos ligados, atentos à tudo!
Mas a real viagem da descoberta, como disse Marcel Proust, não consiste em ver lugares novos, mas em ver com novos olhos. E claro, assim que você tenha novos olhos, mesmo os lugares antigos, mesmo seu lar tornam-se algo diferente.
Assim, de onde você é agora é muito menos importante do que aonde você vai.
Ah! Nunca pensou nisso? Lar não é o lugar em que aconteceu, veja bem: aconteceu!, de nascermos. É o lugar no qual nos tornamos nós mesmos.
Claro! Eu sei, eu sei que é fácil falar, mas realmente acho que é só parando que você pode ver para onde vai. E é só saindo da rotina e do mundo que você pode ver o que realmente lhe importa e encontre um lar.
E lar, afinal, claro que não é só o lugar em que você dorme. É o lugar em que você está.



Queria poder dizer que o texto acima é meu. Na verdade é meu, pois me apropriei, me identifiquei com ele, pus nele parte de mim, ou ainda, vi parte de mim nele. E quando aconteceu, eu disse: é isso.
Ao autor, Pico Iyer, um muito obrigado.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Gostaria de instalar o sem parar?

- Bom dia, senhor. Gostaria de instalar o Sem Parar?
Ouvi muito essa frase. A clássica brincadeira do ‘não tem sem pagar?’ já nem tirava mais aquele sorriso amarelo das atendentes das praças de pedágio, onde quer que estivesse.
Até algum tempo atrás viajar foi mais que um hobby, 
quase um ofício. Mudar de casa, ainda que só por algumas noites, fazia parte das rotinas mensais - pra não dizer semanais.
Mas há algum tempo isto cessou. E a sensação de pertencimento, de referência, de estabilidade mesmo, veio e se encaixou exatamente no lugar que um dia era preenchido pelo prazer de dirigir.

- Boa tarde! Gostaria de verificar água e óleo?
As vezes me questionava se os frentistas não lembravam mesmo que eu tinha passado por ali na semana anterior, algumas centenas de quilômetros depois, entre idas e voltas.
Foram infinitos os motivos que me levaram a tantos lugares: trabalho, passeio, família; passeio, fuga, trabalho; curiosidade, vontade, convite; necessidade, obrigação, disposição...
Ainda hoje gosto de relatar esses números, pra quem quiser ouvir (ou pra quem eu conseguir falar, admito): algumas centenas de quilômetros por semana; alguns milhares de quilômetros por mês; uma pequena fortuna em combustível a todo momento. “E olha que lá pra São Paulo o combustível é mais barato!”, termino.

- Boa noite! Gostaria de escolher poltrona com Espaço+ por apenas 1000 pontos?
Depois de tantas idas e vindas, a oferta do Espaço+ passou a soar irônica. Apesar de ter vivido certas situações em que tudo, no final, só se resumia a tentar encontrar uma resposta vazia na velocidade da estrada, hoje penso que definitivamente, qualquer mais espaço só é possível de ser achado aqui mesmo, na tranquilidade da cautela, da caminhada. Voar, enfim, só quando estritamente necessário.



← OLHE →
Hoje o ritmo já não é mais medido em quilômetros. Mas com passadas sobre o chão quente de asfalto. Olhar de um lado e de outro, observar os movimentos, o cenário como que rolando sobre esteiras, ficando pra trás. Esse tem sido o ritmo dos dias.

Diversas vezes que pensei em instalar o tal do sem parar. Cheguei a contratar por um mês ou outro, só pra testar. Interessante a possibilidade de ver a fila de carros ficar de pra trás quase sem precisar reduzir a velocidade.
- Mas por onde andei mesmo?

Hoje percebo que olhar, seja com um olhar nômade ou de alma viajante, vale mais que qualquer justificativa pra se chegar logo, pra se ver o fim da estrada, pra sentir se valeu ou não o esforço.


Olhar é a oportunidade de crescer com os segundos que passam, de verdade, de avançar com a passos dados, e contados, na certeza de que a firmeza do chão, é a do chão que precisamos e queremos pisar.

domingo, 16 de junho de 2013

s.f. Prudência, precaução, cuidado.

Os avanços tem sido significativos nos últimos tempos. E como gosto de guardar certas datas, deixei que algumas breves reflexões saíssem pelos dedos. A “natureza selvagem” de minha Belém, em referência à um certo livro que li dias atrás, tem se mostrado cada vez menos difícil de entrecortar. Mas não menos densa.
Cautela!
Uns anos atrás aprendi sobre um personagem da história que disse que muitas vezes precisamos recuar um passo para avançarmos outros dois. Isso foi numa aula estranha com um professor que há muito parecia só recuar...
Excesso de cautela?
Independente dos passos ou da quantidade deles, não estou com essa pretensão toda de avançar sobre certos aspectos, sobre certos caminhos. “A natureza selvagem”, disse o livro, “nem sempre nos recebe muito bem”. Talvez de assustada é que as vezes ela se feche.
Definitivamente é cautela.
Num outro livro, que também li não faz muito tempo, encontrei um trecho muito interessante que dizia assim: “a prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar”. Em meio à tanta energia e tanta densidade nesta floresta, onde é impossível passar inerte, foi quase chocante se deparar, quase instantaneamente, com a necessidade de desacelerar.
Cautela, enfim!

domingo, 2 de junho de 2013

Sobre ciclos, círculos e virtuoses

Acabo de voltar de viagem. Ida e volta quase tão rápidas quanto a hora de um relógio num intervalo de almoço no trabalho.
Fechando um ciclo virtuoso de pequenas grandes vitórias, poder reviver este circuito Belém-São Paulo-Belém foi por demais instigante.
Se até alguns meses atrás o ésse chiado gerava estranhesa, depois de dez anos; desta vez, depois de quase três meses, já era ele que regulava novamente meus ouvidos e, já em Sorocaba para algumas poucas horas, o érre arrastado soava com algum ar de novidade.
Você traça planos, se esforça por colocar os anseios dentro de uma razão qualquer (compreensível no papel, ao menos) mas de verdade, no fim, sempre teremos uma dificuldade enorme em saber quanto ou quando certos objetivos estarão aqui, ao nosso lado, em nossas mãos, concluídos e instalados em nossa tranquilidade.
Reviver amigos, paisagens, famílias de sangue, ideias e ideais foi importantíssimo pra saber que o meu caminho é este.
Cada um escolhe o seu norte. Com algumas pessoas percebemos que os nortes se cruzam, independente dos planos e do plano. Ao poder rever estas pessoas aniversariando, casando, sorrindo e gargalhando, ainda que não tenhamos sentado em roda, em círculo, foi curioso perceber como certas mensagens são captadas à velocidade de um raio:
- Sim estou [mais] em paz. - respondo. Ou "mais ao norte", poderia brincar. Também foi gostoso percebe-los em busca dos seus.
A virtuose? Aprendi que uma virtuose pode ser aquela sequência de notas e acordes tão habilmente executadas que poucos músicos são capazes de conseguir.
Gosto de pensar que qualquer um de nós é capaz de fazer da própria vida uma virtuose, cada um a sua maneira, com a sua música. Basta saber qual direção tomar, com qual trilha sonora.
Acabei de voltar de viagem. Foi gostoso perceber amigs e famílias fazendo virtuoses de suas vidas.
Entre um trecho e outro de música, desta vez fico uma faixa inteira: "Paula e Bebeto", na voz de Milton Nascimento.
Saudade, pessoas!

sábado, 18 de maio de 2013

Suave coisa nenhuma





Engraçado perceber como se cria uma mania em avaliar, quase o tempo inteiro, as atitudes que temos, as escolhas que fazemos. Há quem defenda que isso seja falta de convicção, dizendo, apaixonadamente, ‘se joga!’. Não vejo problemas em se jogar. Mas sim naquela sensação estranha de parecer cair pesado como um piano.

Mais engraçado ainda é perceber como os tempos nos dão impressões muito diferentes de tudo: depois de um certo tempo cuidando da minha Belém, tudo parecia lento, devagar.
Saborosamente angustiante, proveitosamente demorado, por dias a fio. Há exatos 32 dias isso se intensificou mais do que nunca, e de uma maneira incrível. E os envolvimentos na Belém de si, de mim, e dos outros tem se tornado cada vez mais interessante.

Pessoas que encontramos pelo caminho, pessoas que nos encontram pelo caminho; oportunidades que nos brilham a cada túnel que passamos - e nos exigem escolhas!; energias renovadas a cada vez que olhamos pra trás com aquela saudade, e sorrimos ao olhar pra frente e sentir aquela expectativa gostosa do que é o horizonte trazer algo fabuloso.

Você vai ver

É só querer
Felicidade é só questão de ser
Felicidade, Marcelo Jeneci



Eduardo


*Amor, Secos e Molhados

terça-feira, 9 de abril de 2013

As sutilezas da Belém de si



I


Duas estradas divergiam numa floresta. 
Peguei a menos andada. Isto fez toda a diferença.
Robert Frost


Hoje estive lembrando das novidades, daquelas que só dependem dos nossos olhos...
As mudanças, bruscas ou sutis - aquelas mesmas que trazem novidades - só dependem da nossa capacidade de observar o que pode nos ser importante ou não.
As dificuldades? Inevitáveis. Mas só permanecem assim se não soubermos encará-las como desafios e oportunidades.
Há algumas semanas venho me dedicando àquelas mais sutis. Afinal, penso eu, as novidades bruscas nada nos ensinam, a não ser em nos exigir exercitar a calma, a paciência e o nosso potencial de observação.
Mas há certas mudanças que mesmo pensadas, marcadas no papel e avisadas aos sete ventos, puxa vida, não conseguem ser menos impactantes do que um grande e enorme piano que, caindo seco e silencioso do alto de um prédio, faça um baque forte e pesado ao encontrar o chão.
Calma! Não me sinto embaixo do piano! Nem caindo com ele. Mas imagine pernas cansadas, mente carregada de zunidos e alguma desorientação que só as boas conversas, um bom barulho de chuva e aquele almoço podem desmanchar.
As memórias? Estarão sempre aqui, trazendo de um lado a saudade e de outro aquela vontade de fazer tudo se juntar, daquele jeito mesmo de quando acabamos de ler um bom livro e logo a gente pensa em querer começar tudo de novo.
Hoje estive pensando em novidades, daquelas que só dependem de nós, das nossas pernas preparadas pra caminhada e dos olhos bem, bem abertos.

Eduardo, 27 de março de 2013


II

Oh, vida, das perguntas desses recorrentes
Dos infindáveis trens dos incrédulos
De cidades repletas de tolos
Que há de bom nisso tudo, oh vida?
Resposta: Estar aqui.
Existe vida e identidade,
Essa brincadeira de poder continua,
E você pode contribuir com um verso.

Há exatos trinta dias eu me repatriava. Sim, isso mesmo: tenho fortes sensações de que voltei ao meu país natal. Desde que comecei a pensar nele, as músicas do grupo Euterpia passaram a povoar meu dia a dia; e, por agora, uma em especial tem ajudado nas adaptações por aqui:

Mesmo que o verde seja falso
Que o cinza prevaleça,
Que eu não pare de falar
Mesmo que a rima seja curta
E que a falta da labuta sempre vá me devorar

É o horizonte que me espera
Fuga que me aguarda
O tempo esmagador.
Veneza, Euterpia

A fuga não é uma opção, por isso ela fica eternamente aguardando. Afinal, o tentar está só começando. Mas alguns desses dias de adaptação tem sido difíceis, bem difíceis; só não mais porque ainda assim os desafios diários tem trazido a gostosa sensação de como é mais fácil alcançar o horizonte do que se imaginava.
Mas não falo apenas de trabalho, também, pois sei que esse vai aparecer na hora certa. Perceber-se e perceber, ao longo desse tempo, que parte dos planos traçados não se concretizarão é que tem exigido uma boa dose de lucidez. E isso sim tem sido complicado.
Eu sei, planos foram feitos pra isso, pra facilitar de entender os objetivos. Mas entre as escolhas e o destino final, tem muita vida no caminho...

Ela sumiu completamente. Nem memória ela deixou.
Isso que se escreve quase sozinho sobre ela
e o que não ficou é como um reflexo.
Incontinência das palavras que buscam significar
até o que não significa mais nada.

Adaptar o trajeto, buscar os reais objetivos que as vezes ficam obscurecidos em nossos orgulhos e arrogâncias, essa é uma árdua tarefa.

Algunas veces, mejor no preguntar,
por una vez que algo sale bien,
si todo empieza y todo tiene un final,
hay que pensar que la tristeza también
se va, se va, se fué.
Eco, Jorge Drexler

Enfim, em meio a essa profusão de mudanças, é incrível a sensação incondicional de pertencimento. A satisfação e a tranquilidade em poder transitar entre novos espaços e (des)conhecidas pessoas que, mesmo estranhando o retorno, te questionam, se colocam e te recebem; te ouvem, se surpreendem e terminam com um “então, bem vindo!”. E desse jeito, sem perceber, acabam por me ajudar na sutil chegada à Belém de si.

Eduardo, 10 de abril de 2013