sábado, 4 de outubro de 2025

Robô Selvagem, pela enésima vez

Minutos atrás assisti ao filme Robô Selvagem pela enésima vez. Chorei, como de costume.

Cada vez que assisto a um filme tento me lembrar quantas vezes isso já aconteceu, ou quais filmes já conseguiram fazer as conexões ferverem em minha cabeça. Sei que costumamos ficar mais sensíveis com aquilo que está mais a mostra, que é mais recente, ou que causa um novo impacto em algo que já parecia estar devidamente acomodado. 

Mas quantos, quantas, quais filmes ou histórias de fato já te fizeram ligar o lé com cré de toda tua vida de uma única vez?


O enredo é de uma robô, a Roz, programada para cumprir tarefas com o máximo de êxito que um computador bem programado pode entregar. Por muitos revéses, ela se vê responsável por algo que não estava programada, ligada a uma vida que não imaginava e o quão profundamente iria remexer em todas as suas linhas de código.


És pai? Mãe? Caso não, talvez me entendas: imagine-se num contexto que você pode até saber quais tarefas tem pela frente, pode até não saber exatamente como resolver cada uma delas, mas se vê tão mergulhado naquilo, com seus humores e sentimentos tão confusos e misturados com as pequenas felicidades e frustrações que se juntam e se misturam ao longo dos dias, que você sequer consegue olhar pra cada uma dessas coisas e, no final, só aparecerá arranhado, machucado, coberto de lama e musgo. Pode ser que te falte pedaços ao longo do processo, também. 


Bico vivo é o menino por quem Roz se vê mãe. Nascido homem, gosto de ver a história como pai. Mas é humanamente impossível repassar a história de trás pra frente, milhares de vezes, e não refletir sobre como meus pais, nossos pais, teus pais, os pai e mãe de todo ser vivo desse planeta, não foram (ou se deixaram) ser arranhados, machucados, jogados do penhasco, amputados, despedaçados, cobertos de lama e musgo, voluntariamente, pra que suas crias aprendessem a bater as asas.


Não faz muito tempo, preciso dizer, acredito que tenha trespassado aquele limiar de insegurança diante da vida que trazemos desde a infância. Inclusive, lembro muito, mas muito bem, de uma cena memorável de um período em que achava que já tinha todas as respostas: eu tinha acabado de arrumar alguns pequenos itens num apartamento que havia alugado pra morar, logo no começo da faculdade. Isso foi em Marília/SP, era 2004 e eu estava com 19 anos. A cena: meus pais dentro do carro indo embora e eu estava da calçada, com um sorriso no rosto e acenando um tchau! - eles estavam iniciando a viagem de volta pra casa deles - em Campinas/SP, quase 4h dali.


Preciso dizer que aquela mudança foi esperada e até programada por mim - do meu jeito, com minhas expectativas, e com todas as limitações de quem tem 19 anos. Arrisco a dizer que da parte de meus pais, idem. Da separação? Duvido tenha existido qualquer preparo, de qualquer um de nós. A cena se completa com meus pais lagrimando e escondendo o rosto, algo que eu facilmente notei mas procurei não me abalar. Se bem me recordo, nada dessa reação me foi dita nas conversas ao telefone que ocorreriam nos dias seguintes (sim, por telefone, pois pode acreditar, um dia o mundo viveu sem whatsapp).


O que eu não imaginaria, mais de 20 anos depois, era que essa cena de ver os dois pela janela do carro chorando seria relembrada depois ver a Roz se despedindo de Bico Vivo, com um aperto no coração nas engrenagens, pois enfim o filhote de ganso havia crescido e estava começando a seguir seu tão esperado momento de migração.


Mas me tornei pai, e não vou entrar aqui em qualquer reflexão sobre ter ou não pedaços faltando, estar ou não com rasgos no peito só por ter trilhado esse caminho - voluntário e supostamente consciente de tudo. Qualquer descrição ou relato seria mera casca de uma história que sempre será íntima e pessoal, de nós para nós mesmos.


Mas posso dizer, sem nenhuma dúvida, que muito me identifiquei com Roz, e que ela ainda fará parte de um seleto grupo de filmes que farei questão de assistir muitas e muitas vezes, por muitos anos.


Eduardo, pai de três quatro, filho de Margarete e Eduardo.



ps: Roz sobrevive à migração de Bico Vivo e, depois de muitos outros novos desafios, passa por uma invejável renovação, sem perder a conexão que criou com seu menino.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Marofa de 3a marcha, por favor.

Onze meses. É o tempo que já passou desde que decidi descobrir como era viver num mundo mais lento. Até então eu não sabia que tudo ficaria mais lento. Não sabia também que ia gostar de estar devagar. Foram 39 anos da mais profunda intensidade, num misto de gentilezas atropeladas, sutilezas acavaladas e uma atitude comparável a daqueles tratores com correntes usadas pra devastar florestas.

Racionalmente eu já vinha, de muitos anos, descortinando minhas ingenuidades (além das faltas de noção), e entendendo que nem tratores, cavalices ou atropelos eram bons. Mentalmente tudo parecia uma árdua ideia de produtivismo misturada com total inaptidão pra qualquer coisa, com qualquer pessoa. Talvez por isso se passaram tantas coisas, situações e pessoas que ainda seguem inexplicáveis? Talvez nunca descubra…

Hoje ainda são 4 de fevereiro de 2025. Quase um ano atrás fiz contato com uma associação canábica, pouco depois de sair de uma consulta médica que me custou bastante - mais emocional que financeiramente. Desde então, gotinhas matinais e noturnas tem regado meus dias. Eu, que sequer fumei qualquer coisa de acender na vida, tornei-me maconheiro.

É isso mesmo. O tom pejorativo é pra tentar falar algo de engraçado. Acho que não deu certo. Tampouco me sinto feliz com essa lentidão toda. Tenha certeza, você que me lê: não quero voltar para quem eu era antes. Só não sei o que fazer a partir daqui.

Estar mais devagar, permitir-me dirigir a 60km (quando a pista permite 70km) está sendo incrível, preciso dizer. Também estou achando o máximo dar atenção pra algumas coisas de cada vez - antes eram muitas, mas muitas mesmo, em muito pouco tempo, o tempo todo.

E eis que a pergunta que mais tenho me feito nas últimas semanas é: quanto tempo será preciso pra refazer tudo, tudo de novo? É como disse Clarice (aquela da Macabéa): Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

A angústia ainda bate forte, dia após dia, e a impressão que dá é disso, entende? Parece que resolvi desacelerar quando estava na subida de um morro.

Que fique registrado, jamais me verão de novo guiando um motor 1.0 a 180km/h (sim, já fui assim e eu nem sei pescar). Mas preciso urgentemente sair dessa marofa.

Abs

ps: leiam Sidarta Ribeiro!